Editorial: Trilha não é teste de coragem: é compromisso coletivo


20.01.2026

Nos últimos dias, uma história envolvendo o abandono de um amigo durante uma trilha ganhou repercussão nacional. Independentemente dos detalhes do caso, o episódio reacende um ponto que precisa ser dito com clareza: fazer trilha não é uma atividade individualista. Quem entra junto, sai junto. Qualquer coisa fora disso vira risco real.

Trilhas parecem simples, mas não são. Terreno irregular, variação de clima, cansaço físico e falhas de orientação fazem parte do pacote. Basta uma torção no pé, uma queda boba ou uma crise de pânico para tudo mudar. Nessas horas, a presença de alguém de confiança deixa de ser companhia e vira fator de sobrevivência.

Há ainda riscos que muita gente subestima. Animais peçonhentos existem, mesmo em trilhas conhecidas e próximas da cidade. Cobras, aranhas e escorpiões não avisam, não respeitam experiência nem preparo físico. Um acidente assim exige calma, ajuda imediata e, muitas vezes, saída assistida do local. Sozinho, o tempo vira inimigo.

Preparação também não é luxo. É responsabilidade. Escolher trilhas compatíveis com o grupo, avisar alguém de fora sobre o percurso, levar água suficiente, alimentação leve, celular carregado e, sempre que possível, um kit básico de primeiros socorros. Isso não transforma ninguém em especialista, mas reduz muito as chances de um passeio virar emergência.

Outro ponto essencial é o acordo que se faz antes de entrar na mata. Ninguém fica para trás. Ritmo se ajusta, pausas são respeitadas, sinais de cansaço não são ignorados. Trilha não é competição, não é prova de resistência, não é lugar para ego. Abandonar alguém por pressa, impaciência ou medo de atrasar o próprio plano é uma escolha grave, com consequências que podem ser irreversíveis.

Andar acompanhado significa mais do que ter alguém ao lado. Significa suporte, responsabilidade mútua e decisão compartilhada. É confiar e ser confiável. É entender que, em ambiente natural, o erro mais perigoso não costuma ser a falta de preparo físico, mas a falta de compromisso com o outro.

A natureza não perdoa descuido. E trilha só termina quando todos voltam.

Especialmente em uma região como a nossa, cercada por belezas naturais, cachoeiras e trilhas que atraem moradores e visitantes o ano inteiro, essa reflexão se torna ainda mais necessária. 

O contato com a natureza é um privilégio, mas exige responsabilidade, cuidado, consciência coletiva e atitudes mais maduras para que o lazer não se transforme em tragédia.

Que este episódio sirva como alerta e convite à reflexão, agora, quando tanta gente volta os olhos para atividades ao ar livre. Fica novamente o lembrete: ninguém faz trilha sozinho, mesmo quando está acompanhado.

Boa leitura do Jornal Vila do Príncipe.

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